Apresentação

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Mestre Jaburu – Capoeira Angola Guayamuns. Morador do Quilombo Família Fidélix – Porto Alegre/RS

Cartografia social, identidades negras, paisagens sonoras, territorialidade. Estes são os pontos de partida de nossa proposta OuvidoChão – Cartas Quilombolas. Aliando linguagens de design de som e design gráfico a recursos tecnológicos de interatividade e geolocalização, iremos elaborar cartografias sonoras de quilombos urbanos da cidade do Rio de Janeiro.

Será feito um mapeamento colaborativo das sonoridades destes territórios, lançando uma escuta sobre a presença política, cultural e histórica da negritude nestes espaços. Nosso intuito é ressaltar a afirmação negra no espaço físico e nas dinâmicas culturais de grandes metrópoles brasileiras, neste caso o Rio de Janeiro, afirmando sua importância na construção social da cidade a partir dos índices sonoros desta presença na atualidade. Experimentaremos uma interação de linguagens de arte tecnológica a conceitos geográficos, de modo a propor um fluxo de informações e de acesso a tecnologias de geolocalização física e virtual.

Desta maneira, como fortalecimento ao processo de resistência histórica dos povos quilombolas – ampliação do trabalho por nós já desenvolvido em Porto Alegre-RS junto a Frente Quilombola RS; e em Recife/Olinda-PE junto ao Cineclube Bamako – a proposta artística/política de OuvidoChão – Cartas Quilombolas busca potencializar ainda mais a importância destes espaços, ocupados por povos desterritorializados historicamente que se reterritorializaram, ou seja, retomaram os territórios africanos dos quais foram sequestrados, e neles reconfiguraram suas tradições originárias, semeando e colhendo em solo brasileiro sua ancestralidade numa perspectiva cíclica, de tempo não-linear.

Trazendo como princípio esta relação com o chão, com o solo, nossa proposta visa aprofundar uma poética da agricultura dos sons, tanto em sua perspectiva material (índices sonoros, impacto social e político) quanto imaterial (signo sonoro, significados, relação com espiritualidade) e diálogos com conceitos do campo geográfico – espaço, lugar, territorialidade – a partir da construção das cartografias sonoras.

Memória, Oralidade e Narrativas – Na perspectiva imaterial desta cartografia buscaremos aprofundar em nossa prática a reflexão sobre um resgate das cosmogonias de África, como forma de empoderamento e afirmação dos valores culturais ancestrais, elementos de identidade para agregar os povos quilombolas e unificar a luta com demais parceiros; bem como reflexões sobre memória e narrativas orais, realidade / fabulação e tradição ancestral como processo de constante reinvenção.

OuvidoChão – Cartas Quilombolas terá seu desenvolvimento enquanto pesquisa/residência artística a partir do primeiro semestre de 2019, durante dois meses. O projeto da obra final (ambiente sonoro) será lançada até um mês depois da finalização da pesquisa. No segundo semestre de 2019 teremos a circulação independente das cartas sonoras físicas (realização independente). Buscaremos a aliança de profissionais de design gráfico e sonoro, quilombolas, coletivos de arte e desenvolvedores para uma construção colaborativa destas cartas. Compartilharemos, assim, o reconhecimento destes espaços políticos e afetivos em uma proposta de socialização das
(re)descobertas sonoras de nossas identidades nos territórios negros da capital fluminense.

 

AMBIENTE SONORO

Nossa cartografia sonora estará acessível a partir de uma obra de arte tecnológica interativa: um ambiente sonoro no qual o visitante ao aproximar-se de determinado ponto do mapa projetado em parede acionará uma imagem de referência (ex: rosto de um quilombola, instrumentos musicais) e as sonoridades – vozes (cantadas, declamadas, faladas); depoimentos coletados ou de arquivo; músicas e cantos de trabalho – captadas nos territórios.

As sonoridades serão mixadas a critério da pessoa que interage. As cartas sonoras poderão ser acessíveis também a partir de mídias físicas – mapas impressos.
Estas versões físicas (proposta de contrapartida aos territórios) serão afixadas (colagem lambe-lambe) nos territórios quilombolas onde foram coletados os sons. A partir de aplicativos de realidade aumentada o público poderá acessar as sonoridades nos
próprios locais onde foram captadas, desde que haja conexão de internet. Traremos assim uma obra expandida, que discutirá as relações de conexão entre espaços físicos e virtuais.

 

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Seu Tilmo – Pedreiro. Morador do Quilombo Família Fidélix – Porto Alegre/RS